29 de março de 2016

Os meninos de lata também vão de trem

Ferro bruto. Bruta a vida, do menino que pinta de alumínio a face esquecida. No vagão, vagueia cambaleando por entre as tantas gentes, as tretas. Moço, dá um níquel, também de alumínio, nas mãos do menino. Cinquenta centavos, um real, esse montante é pro natal. Paro, pergunto seu nome, sua idade, o sorriso se abre pela metade. Pequeno no tamanho, grande na fala, "sou do tamanho daquilo que sonho", já dizia Fernando. E no outro dia, vejo de novo, os meninos latas, entregando, pouco a pouco, as moedas enferrujadas por um hambúrguer no bobs, um canudinho, uma coca em lata.

when I find myself

Eu me encontro. Na música que chega de fininho, inundando a rua, convidando as gentes todas a parar. Eu me encontro. Nas projeções que passam por meus olhos, indo e vindo lentamente, daqueles prédios sem começo, nem fim. Eu me encontro, no menino que lança o peão ao alto pra vê-lo brilhar. Eu me encontro, nas mãos dadas, nos beijos roubados do casal em minha frente. Eu me encontro, nas crianças dançando suas valsas livremente, sem medo, sem regras, no meio da avenida. Eu me encontro. No bêbado deitado no chão do trem tentando entender por que o chamaram de pagodeiro, se ele nem gosta de pagode ( mesmo eu gostando de pagode) . Eu me encontro na estação que chega, nas portas que se cerram e no próximo ônibus que me leva até o morro. Eu me encontro em cada canto dos cantos que percorro, constantemente, e, quando assim convém, Eu também Te Encontro, mas sem nunca deixar de me encontrar antes

histórias de trem: o amor, ah, o amor

Hoje, em histórias de trem: o amor, ah, o amor
Naquele dia frio, a incerteza permeava seus sentidos todos. Não sabia se permanecia atrás da janela, olhando a rua passar, ou se pegava o trem, com destino a qualquer lugar. Ao chegar à estação, perguntou ao primeiro guarda qual seria o primeiro trem, pra qualquer cidade, onde não houvesse ninguém. . Andou, a esmo, pela beira do porto, sentindo os ares dos novos mares que a ela se apresentava. Ouviu, ao fundo, um sax que tocava baixinho, feito prelúdio, dos encontros que estariam por vir. Após sugar a fria beleza que ali se instalava, botou a mala sobre as costas e, cabisbaixa, partiu pelos mesmos trilhos que dantes havia passado. Enfiou-se dentro de seu casulo, seu casaco preto escondia o brilho, dos olhos, do riso. Não imaginava, sequer passou em sua cabeça, que as estações reservam surpresas que nem os maquinistas imaginam. Ele apenas entrou. Sentou ao seu lado, com seu ar tímido, seu olhar doce e pairou, pairou olhando o infinito. Ela, não sei como, despiu-se do medo, da vergonha permeada pelo capuz que a envolvia e resolveu, repentinamente, questioná-lo da origem de uma palavra que flutuava sem sentido em sua mente. Ele, sem pestanejar, cedeu: a palavra, o sentido, o riso, um cartão e saiu pela próxima estação.

memórias dançantes

Vou pegar essa saudade
Colocar numa caixinha de música
E dançar com as memórias
de você e eu.

just in time

Passo o passo
Acelero, aperto os dedos
Nos ovos, em nuvem
Em cacos
Passo o passo
Nenhum salto a mais
"Just in time"
But I know, it is not mine
Esqueço a vez
Dos jogos, dos blefes
Escancaro meus reis
Essas peças-quebradas-cabeça
jogadas noutro chão
Não estão em minha mão.
Continuo, "I keep in my way"
Eu, eu mesma, just one more day!

coração-chiclete

Meu coração é feito chiclete. O medo é que ele, uma hora dessas, estoure!

laços avulsos abertos

isso vai, assim, sem que precisemos dizer
palavra
transborda sobre aquilo que éramos até
passado pretérito imperfeito
presente pulsante de nós
laços avulsos abertos

as coisas findas

é triste. é triste e bonito. é triste e bonito ao mesmo tempo, tudo que é triste, tudo que se esvai sem dizer que já foi. mas há beleza nas coisas findas, sempre há, há de ter.

querência

"Você me dá querência deslimitada"

pretéritos imperfeitos

Não guardo palavra, não. Faço vivo todos os pretéritos imperfeitos de mim. E faço poesia, enquanto o mundo cai . O coração não para de bater

que brado!

juntei estas estas gotas de mim aos galhos - que brado! 

casa alargada

De repente, tudo na casa se alargou. Os cômodos se transmutaram. Eram galpões cheios de vazio. E o silêncio - o silêncio alargava tudo - só não o estreito aperto do sim-não que reinava a sala naquela tarde. Não havia um canto da casa, nem grito, nem tom, que o coração não se estreitasse. Só havia a casa agora, tentando se sustentar em suas velhas vigas, coberta por suas velhas telhas, no seu velho quintal.

Prazo de validade

Mas que coisa, essa vida é um misterioso causo de prazo de validade. A gente já nasce sabendo que vai acabar. E, com medo de se acabar na gente mesmo, é que nos eternizamos nos outros. Sempre na esperança de deixar o que é fim, aqui, um começo lá. E demos adeus ao que aos deuses já pertencia. Cantamos nossos ritos, evocamos nossos eus em nossos rituais. E, descobrimos, aí, que somos todos formados de partidas particularizadas dentro de cada ida que fica em nós feito saudade. Eu sou a filha da falta, me lembrando a cada tempo que a música só se faz viva por ser movimento e pausa. Vírgula e palavra corrida. Sonho e despertar. Depois de um grande hiato, você descobre que é preciso deixar espaçar, pra, então, poder preencher.