Primeiro dia de aula. 1ª série. Minha lancheira era roxa, e o cheiro do
pão com presunto e queijo, preparado por minha mãe, ainda vive na
lembrança. Dalí a pouco, toca o sinal, ela vai embora e eu percebo um
medo crescendo de repente.
Olho ao redor. Um tanto de crianças pulando.
"Será que eles já se conhecem? Só eu que não conheço ninguém?". Menina
tola. Era o pessoal do 2º ano. Senti que, ali, naquela escola com
meninos grandes, eu teria que aprender a me virar sozinha.
1º D.
Professora Ivône. Era uma mulher de estatura baixa. Nem gorda nem magra. Cabelos negros e lisos até a cintura. Parecia uma índia. Uma índia
evangélica, logo percebi, pela saia que levava até os joelhos e pelo modo como falava de Deus nas aulas.
Eu adorava ir à escola e gostava também da Prô Ivône. Ela sempre elogiava
meus trabalhos e, de sobra, ainda escrevia um comentário em todos
eles - Parabéns, ficou lindo, princesa!
Eu achava que aquilo era só
comigo, até ver o mesmo comentário nos trabalhos dos colegas. Um dia,
levei um presentinho pra Prô, um ursinho. Ela adorou. Mas passado algum
tempo, ela começou a dar algumas coisas de brinde para as crianças. E,
poxa vida, ela deu o meu presente para a Daniela. Uma menina que sentava
na primeira fileira do canto esquerdo. Fiquei chateada. Contei a minha
mãe. Aí ela explicou que não importava pra quem ela desse o presente,
pois a professora índia iria continuar gostando de mim da mesma forma.
Demorei um tanto de tempo pra
entender esse dinamismo das coisas, e como nos sentimos proprietários
até daquilo que damos. Passados catorze anos, eu compreendi que nem tudo
que você doa permanece igual. O efeito de transformação excede àquele
cronometrado por seus sentidos e sentimentos. Hoje em dia, enconro a prô
Ivône pelas ruas, ela já com seus 60 e poucos anos, eu com meus 21.
Engraçado, ela continua me chamando de "minha princesinha", mas desconfio que nem se lembra do meu nome.
1 de fevereiro de 2013
6 de janeiro de 2013
Folia de Reis no sítio do vô Zé
Dia de Reis faz eu me lembrar da primeira vez que fui ao
Paraná, visitar meu avô, Seu Zé. Eu tinha seis anos, ele dois violões. Contou
que havia tocado no 'Dia de Reis'. E que, todos os anos, repetia a mesma
façanha, desde que era moço novo.
Aproveitou e me mostrou como é que se tocava. Pegou seu
violão da cor do céu e, naquele momento, enquanto seus dedos se deslizavam pelo
braço do instrumento, eu senti, pela primeira vez, vontade de também fazer sair
de meus dedos alguma música.
Nesse dia, ele disse que aqueles dois violões eram meus.
"Herança minha pra tu, menina!". Passados seis meses de minha visita,
ele veio morar aqui em São Paulo, sem a mulher, e sem os violões. Um dia,
voltou pra buscar a mulher, dona Nair. Mas, mesmo depois disso, vivia dizendo
que precisava voltar para sua terra.
Ninguém entendia muito bem essa vontade de voltar, já que
aqui estavam todos seus filhos. Foi aí que, no dia 7 de dezembro de 1999,
enquanto ele se preparava para mais uma viagem ao Paraná, ele disse à minha mãe
que voltaria à sua terra prometida e pediu a ela que o perdoasse de qualquer
coisa. Gente do interior sempre diz essa frase quando tá indo embora da casa do
parente. E gente do interior também costuma dar muito valor pra terra que pisa
e planta.
Noutro dia, já com as passagens em mãos, Seu Zé acordou meio
cabisbaixo. Pediu a dona Nair que preparasse um chá. "Deve ser ansiedade
pra viajá, Zé", pensou a senhora. Deitou-se um pouco, já que a viagem
seria só à noite. Aí, que a viagem se adiantou tanto, que seu Zé não aguentou
mais de saudades de seus violões, e naquela tarde, após o almoço, foi de vez
para sua terra prometida, deixando mulher, filhos e netos.
Não sei explicar o porquê, mas eu não consegui ir ao seu
velório. Pra mim, vô Zé tá lá em seu sítio, trocando os dedos em um violão
azul, me esperando chegar só para entregar sua herança.
4 de janeiro de 2013
Um novo calendário
Tem horas que as palavras ficam coçando tanto nas pontas dos
dedos, que parece que vão gerar chagas. E, quanto mais você coça, mais quer
coçar, coçar e coçar. Até que uma hora surgem umas feridas marcando tanto a
pele, que nunca mais saem, assim como há de acontecer com as próprias palavras.
Por isso, é preciso não perder o time. Não esquecer o verbo
e não abandonar o ritmo dos versos. Senão, a gente morre e a palavra morre com
a gente, sem mesmo desflorar.
Aprendi, no ano passado, que não existe mais um ano de vida.
Existe a vida. Que o ano, o tempo e o espaço sou eu que crio. Então, eu desejo
a mim e ao tanto de gente que tiver paciência de ler isso, que o próximo ano
traga muitos espaços. Sejam eles apertados ou frouxos. Sem crise, o que importa
é ir além de si próprio, mesmo que seja de forma apequenada, curta. Transcender
seu espaço em novos é também uma forma de se alongar, mesmo permanecendo dentro
de seu próprio perímetro.
Que o novo calendário traga também muitos tempos, pra você
entender que, se a natureza tem quatro estações, você tem, no mínimo, o dobro.
E isso é bom. Se nem as frutas nascem durante todo o ano, por que você haveria
de estar exatamente do mesmo modo que esteve ontem?
No mais, desejo que, em 2013, nos cruzemos mais por aí,
tomemos uma no boteco da esquina, joguemos conversa fora e também risadas e
lamentações.
14 de dezembro de 2012
Sul-FITE
É que, às vezes, quando você se apaixona por uma folha
sulfite em branco, ela permanece em branco. Vazia, em cima da escrivaninha. É
triste, já que eu sempre deposito muita expectativa em qualquer folha, até
mesmo aquelas que já foram rabiscadas. A verdade é que eu não me importo com o
tipo de folha, eu só quero uma folha pra escrever alguma história. A minha, a
sua, as nossas.
10 de dezembro de 2012
Ilhados em Cardoso – uma aventura no manguebeach
Reza a lenda que um tal de André, que era irmão de Simão,
que conhecia um tal de Jesus, começou a tratar muito bem uma gente que dele se
aproximava na praia. Eis que esse André foi virar padroeiro de uma ilha bem
distante daqui, mas onde o mar se mistura com o céu, e o céu, meu povo, fica
perto, mas muito perto dos dedos de quem costuma contar estrelas ao anoitecer.
Vai vendo!
| Ilha do Cardoso |
Era uma vez umas gentes cheias de vontade: de pisar na
areia, de ver golfinho e molhar o dedão do pé . E era uma vez umas vontades
cheias de gente: fina, elegante e sincera, que, na manhã daquele 1º de
dezembro, firmaram seus calcanhares na praia de um tal de Cardoso, que sequer
deu as caras durante aqueles dias.
Malandro, seu Cardoso deixou lá alguns capangas que davam as
coordenadas pra onde é que aqueles pés sem rumo deveriam armar seus devaneios.
- Vinte e sete pés, aqui!
- Sim, senhor! Gritaram.
- Com emoção ou sem emoção?
Ninguém respondeu.
- Silêncio dado, emoção vendida! Gritou o capanga, rasgando
mato adentro! “Emoçããããããããão” saiu
dizendo!
Amedrontados, os 27 pés descalços foram adentrando por
aquela floresta no meio da areia salgada. E um deles, lá do fundo, indagou
“Mangue é só no nome, né?”. Mas o homem que ia à frente não respondeu.
E, pouco a pouco, íamos sendo abraçados pelos braços das
árvores. Cutucados pelos galhos e observados pelos caranguejos. Muitos. Que iam
e vinham, vinham e iam, como a dizer “nhém nhém nhém nhém, sinal fechado pra
você, playboy”!
| Ponte do mangue |
E, sem titubear,
parávamos feito estátuas, até que aquelas filas passassem e pudéssemos seguir o
caminho dos fundos. Aquela era a avenida paulista do Manguetown. E os nossos
pés eram os carros, que, diferente dos de cá, paravam pra natureza passar.
Ao enfrentar o primeiro desafio, outro mais nos esperava. Uma grandiosa ponte grande. Alta. Tão alta que, se você caísse, iria
ser sugado pelos caranguejos infiltrados em seus buracos. E, por isso, todo
mundo passava na ponta dos dedos, arrastando os pés e levantando os calcanhares,
assim como, mais tarde, iriam fazer ao dançar um forrobodó do outro lado da
floresta (en)cantada.
Após armarem seus sonhos, e guardarem seus problemas nas malas,
todos foram esbravejar aquela Ilha, que já não era mais do Cardoso ou dos caranguejos
que a habitavam. Era nossa e dela nos apropriamos. Nos afundávamos tanto
n’água, que parecia um batismo da alma.
E, na noite desse dia, todos já estavam pra lá dos saquês de
abacaxi e caipirinhas de morango. Ouvia-se rojões. Soltava-se fogos à doidado.
E o povo todo ia à loucura, enquanto as rabecas do fandango iam surtindo efeito
naqueles que tinham ouvidos nas solas dos pés e remelexo no meio da
cintura. Era um tal de
quebra-quebra pra lá. Quebra-quebra pra cá, até que uns joelhos não agüentavam
mais. Mas esses mesmos joelhos tinham
motivos de sobra pra se ter mais fé.
Seja para observar iscas e anzóis, daqueles Andrés, Pedros e Tiagos que
pescavam no mar em frente, ou apenas
para comemorar. Mesmo não estando tão famintos ou curiosos, continuavam a olhar
o mar escuro. E olha que o mar escuro daquela noite trazia o medo lado a lado, mas,
logo, transformava-o em corais mais coloridos.
VALEU A PENA, Ê, Ê! VALEU A PENA, Ê, Ê!
Eternamente, pescadora de ilusões.
De Selenita para a galera da TRIP para TODOS!
Texto realista-fantástico-doidera, totalmente inspirado em viagem à Ilha do
Cardoso, dezembro de 2012.
4 de dezembro de 2012
Sinal (quase) fechado
- Mas como vai a vida, Cara Amiga?
- A vida, Caro Amigo caro, anda como aquela velha folha sobre o rio. Mas, agora, com ventos mais ligeiros, às vezes, até ventanias e furacões. Mesmo assim, anda leve. Anda solta. Noutras, anda com vontade de se fixar numa boa árvore. Que traga sombra e firmeza. Mas, quando isso acontece, sempre vem uma nova ventania que a leva pra outros rumos.
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