27 de abril de 2013
Ponto Neutro
É preciso se desacostumar do costume alheio. Voltar ao ponto zero, mais uma vez. Afinal, é necessário estar neutro para conseguir somar novas contas ao seu próprio conto.
4 de abril de 2013
Oba, lá vem o vendedor ambulante!
Vendedor ambulante entra e joga sua mochila nos pés de um passageiro. Os "tiras" chegam e descobrem. Descem do vagão. Eu olho relembrando de quando eu ainda era criança e vi um desses guardinhas pisoteando o salgadinho de uma vendedora ilegal. As cortinas do teatro da vida real se fecham. Eu viro e digo que o comércio ilegal é muito legal quando eu tô com fome. A senhora ao lado vira e diz:
- Seu coração é pura compaixão.
Eu viro e retruco, sem ao menos pensar:
- Não! Minha mente que é pura inquietação!
- Seu coração é pura compaixão.
Eu viro e retruco, sem ao menos pensar:
- Não! Minha mente que é pura inquietação!
3 de abril de 2013
'Quem rezar por mim, que o faça sambando'
Caminhava apressada para chegar ao samba no Bixiga. No
caminho, avistou as portas entreabertas de uma igreja que nunca havia entrado.
Antes mesmo de pensar em entrar, foi barrada por um vendedor de rosas. Um negro
alto com uma vista comprometida. Uma das janelas da alma estava totalmente
coberta por uma camada esbranquiçada. Dizia estar com fome e, por isso, queria
vender cinco flores murchas por vinte reais. A moça, solidária, desembolsou
dez. Ele titubeou, tentou até negociar, mas não havia o que reclamar. Tomou os
dez reais nas mãos e, em troca, deu uma rosa com pétalas caindo, enquanto dizia
que Nossa Senhora a protegeria. Foi embora, enquanto a moça entrava naquele
grande templo, todo ornamentado. Olhou todos os detalhes e pensou no tanto de
dinheiro que fora deixado praquela arquitetura. Botou os joelhos no banco de
madeira, como há muito não fazia. Afinal de contas, não acreditava mais em
Deus. Mas isso não a impediu de agradecer. Só não sentia mais a necessidade de
pedir perdão. Não via pecado em não acreditar em Deus, muito menos em não
seguir os mandamentos. Continuou ajoelhada e pediu apenas pela energia, essa
que envolve gente, bicho, planta e até inseto. E ali ficou, aguardando o
momento da hóstia chegar. Pelas regras, não podia tomar o corpo de Cristo, já
que não chegou no início da missa. Incrível como ainda lembrava do ritual. 'O
corpo de Cristo'. 'Amém'. Tomou, ajoelhou mais uma vez. Mas diferentemente
doutros tempos, não esperou o 'Vai em paz e que o Senhor voz acompanhe'. Ainda
na igreja, lembrou do destino inicial e pensou na frase de um poeta do povo.
"Quer saber?", disse a si mesma, "quem quiser rezar por mim, que
o faça sambando!". Nesse dia, sambou tão intensamente, que até perdeu o
último trem das onze.
Histórias de trem, capítulo de hoje: triângulo amoroso
Eu tava sentadinha no único canto que me restava naquele
latifúndio do vagão. Comia, tranquila, meu amendoim rosa, quando de repente
ouço uma história que me fez até levantar. Um homem, cheio de sacolas, falava
com duas mulheres. O sotaque arrastado denunciava que vinha da cidade
maravilhosa. Ele, um moço baixo, vestindo uma camisa do corinthians, um boné
preto, bermuda e tênis. Elas, umas curiosas, assim como eu. Peguei o trem
andando, e ainda encostei na janelinha. Cheguei no momento que ele dizia que a
Maria e a Paula (pasmem!) dormiam com ele na mesma cama e o amor dos três, ah,
isso é lindo. Pois, é. O rapaz, que nem sei o nome, vive há trinta e dois anos
um tipo de amor que eu pensava que existia só nos recôncavos mais côncavos
desse Brasil. Mas eis que ali no município ao lado, em Franco da Rocha, o homem
vive na mesma casa com suas duas esposas. Tem três filhos com a Maria e dois
com Paula. O homem diz que nunca traiu nenhuma das duas. O fato de transar com
duas pessoas o satisfaz de forma mais completa. É nessa hora que eu faço a
pergunta clichê que não quer calar. E se uma delas resolve ter outro marido?
Tudo bem, tudo lindo, e complementa - vi um dia desses uma mulher de um país,
esqueci o nome, que tinha dois maridos. E noutro país, vi um homem com seis
esposas. Já vi muita história de homem com duas mulheres, mas que não aceitam
ela ter um segundo marido. "Ah, o que falta pra esses homens é
informação". Sua história dá um livro. Mas vocês são o que, jornalista,
repórter?, questiona preocupado. Não, moço. Eu só sou do trem mesmo. Dou tchau,
enquanto o maquinista informa que chegamos a Estação Perus, chegando também ao
fim mais um capítulo da Linha 7-Rubi. Amanhã tem mais, tem, sim senhor!
21 de fevereiro de 2013
É sábado de carnaval
O último trem sai à uma da madrugada. É sábado de carnaval.
No vagão, um crente entoa seus cânticos. Do outro lado, um menino de boné apoia
seus pés no banco e adormece.
Depois de uma hora, o ruído do freio anuncia a próxima
parada. As portas se abrem, assim como as cortinas de um teatro velho. Guardas
esperam ansiosos pela saída do último passageiro. É sábado de carnaval.
As escadas, sempre tão cheias de pés, bundas e cotovelos,
agora estão esvaziadas. No ponto de ônibus, uma meia dúzia de almas esperam.
Do lado direito, três moças conversam alegres. Uma chega e
grita, ainda da escadaria, "gata, onde você vai? Cumprimentam-se.
"Caraio, você aqui". Em cinco minutos, são surpreendidas com uma
carona. É sábado de carnaval.
"Opa, parceiro", chega o bêbado, enquanto os
garotos decidem se vão ou não ao funk da loira. Mas o bêbado não se dá conta e
continua seu falatório sem fim. "Ae, irmão, não leva a mal não, mas cê
pode fazer um olho aí, pá gente trocar uma ideia no particular?". É sábado
de carnaval.
O bêbado não responde. Se curva para o único cachorro que
passa. "Ô, negão". Alisa sua cabeça. E os dois, bêbado e cão, seguem
próximo à barraca do churrasquinho de gato. O cão para, como quem pede por um
pedaço do cheiro da carne. Já o bêbado, senta-se ao lado do cão, bota suas mãos
e joelhos no chão. E ali, páreo a páreo com o cão, foi que o bêbado encontrou
seu único consolo.
É sábado de carnaval, mas um homem vai amanhecer abraçado a
um cão. Enquanto todos os outros que esperam sobem no último destino dessa
noite: Cemitério Perus - 8015.
Afinal, é sábado de carnaval, mas a vida continua.
Nós que aqui estamos, por Godot esperamos
Eu não sei se sentem isso, mas sempre tenho a impressão que, daqui a cinco minutos, algo extraordinário vai acontecer. Algo que mude o fio da meada, que traga um 'num sei o quê', misturado a 'num sei quê lá'! Aí é que, nesses momentos, eu percebo que a gente tem que ser menos taxista na vida. Deixar de esperar o passageiro chegar, e sair por aí, como quem num quer nada. "Afinal, o importante é estar na roda, que mesmo parado, você continua em movimento.
1 de fevereiro de 2013
Primeiro dia de aula é inesquecível
Primeiro dia de aula. 1ª série. Minha lancheira era roxa, e o cheiro do
pão com presunto e queijo, preparado por minha mãe, ainda vive na
lembrança. Dalí a pouco, toca o sinal, ela vai embora e eu percebo um
medo crescendo de repente.
Olho ao redor. Um tanto de crianças pulando. "Será que eles já se conhecem? Só eu que não conheço ninguém?". Menina tola. Era o pessoal do 2º ano. Senti que, ali, naquela escola com meninos grandes, eu teria que aprender a me virar sozinha.
1º D. Professora Ivône. Era uma mulher de estatura baixa. Nem gorda nem magra. Cabelos negros e lisos até a cintura. Parecia uma índia. Uma índia evangélica, logo percebi, pela saia que levava até os joelhos e pelo modo como falava de Deus nas aulas.
Eu adorava ir à escola e gostava também da Prô Ivône. Ela sempre elogiava meus trabalhos e, de sobra, ainda escrevia um comentário em todos eles - Parabéns, ficou lindo, princesa!
Eu achava que aquilo era só comigo, até ver o mesmo comentário nos trabalhos dos colegas. Um dia, levei um presentinho pra Prô, um ursinho. Ela adorou. Mas passado algum tempo, ela começou a dar algumas coisas de brinde para as crianças. E, poxa vida, ela deu o meu presente para a Daniela. Uma menina que sentava na primeira fileira do canto esquerdo. Fiquei chateada. Contei a minha mãe. Aí ela explicou que não importava pra quem ela desse o presente, pois a professora índia iria continuar gostando de mim da mesma forma.
Demorei um tanto de tempo pra entender esse dinamismo das coisas, e como nos sentimos proprietários até daquilo que damos. Passados catorze anos, eu compreendi que nem tudo que você doa permanece igual. O efeito de transformação excede àquele cronometrado por seus sentidos e sentimentos. Hoje em dia, enconro a prô Ivône pelas ruas, ela já com seus 60 e poucos anos, eu com meus 21. Engraçado, ela continua me chamando de "minha princesinha", mas desconfio que nem se lembra do meu nome.
Olho ao redor. Um tanto de crianças pulando. "Será que eles já se conhecem? Só eu que não conheço ninguém?". Menina tola. Era o pessoal do 2º ano. Senti que, ali, naquela escola com meninos grandes, eu teria que aprender a me virar sozinha.
1º D. Professora Ivône. Era uma mulher de estatura baixa. Nem gorda nem magra. Cabelos negros e lisos até a cintura. Parecia uma índia. Uma índia evangélica, logo percebi, pela saia que levava até os joelhos e pelo modo como falava de Deus nas aulas.
Eu adorava ir à escola e gostava também da Prô Ivône. Ela sempre elogiava meus trabalhos e, de sobra, ainda escrevia um comentário em todos eles - Parabéns, ficou lindo, princesa!
Eu achava que aquilo era só comigo, até ver o mesmo comentário nos trabalhos dos colegas. Um dia, levei um presentinho pra Prô, um ursinho. Ela adorou. Mas passado algum tempo, ela começou a dar algumas coisas de brinde para as crianças. E, poxa vida, ela deu o meu presente para a Daniela. Uma menina que sentava na primeira fileira do canto esquerdo. Fiquei chateada. Contei a minha mãe. Aí ela explicou que não importava pra quem ela desse o presente, pois a professora índia iria continuar gostando de mim da mesma forma.
Demorei um tanto de tempo pra entender esse dinamismo das coisas, e como nos sentimos proprietários até daquilo que damos. Passados catorze anos, eu compreendi que nem tudo que você doa permanece igual. O efeito de transformação excede àquele cronometrado por seus sentidos e sentimentos. Hoje em dia, enconro a prô Ivône pelas ruas, ela já com seus 60 e poucos anos, eu com meus 21. Engraçado, ela continua me chamando de "minha princesinha", mas desconfio que nem se lembra do meu nome.
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