Tem horas que nossos espelhos nos viciam tanto, que é melhor
quebrá-los. Encontrar novos espelhos pra nos espelharmos. E assim ocorre também
com a bolha que nos circunda. E quando nos vemos tendo que estourá-la, a mente
dói, o corpo sente. É preciso estar longe de si próprio e de toda sua origem
pra saber o quanto precisa disso. Mas estar longe é necessário. Não se constrói
o novo sem lembrar do velho, mas também não se modifica o novo, se apenas
utilizarmos as referências do velho.
16 de agosto de 2013
Eu (não) quero C, eu quero star
Hoje eu sou
objeto de estudo.
Um quase ser
analisado em todas as dimensões.
Me
desmiuçaram dos pés à cabeça, numa hipótese confusa dizendo que, antes deles,
eu não era.
Comecei até
mesmo a aparecer no jornal, na nova vírgula decimal que faz de mim uma
porcentagem constitucional.
E, em meio a
tantas hipóteses, chegaram à conclusão que meu nome agora é C.
Como C, bebo
C, ouço e visto C.
Na boa?
Eu não quero
C, eu quero star!
Esse meu olhar de bala
E meu olhar,
agora, é só uma câmera fotográfica assistindo ao longe mais um corpo passando.
E a minha mente se confunde com os livros na estante e com as multidões
correndo de balas, de gás, e de outras gentes. Busco de forma incessante uma
saída, uma forma de dizer chega! de dizer basta! mas o meu grito sozinho, é só
uma sílaba flutuando num ar sufocante, que, pra ser frase inteira, precisa de
mais, de muitos, de todos. Recuo. Avanço. Recuo outra vez. Lembro dos livros,
das frases de paz, a não-violência, a firmeza permanente. A confusão remonta
inteira em cima de mim. Pra onde é que estamos indo? E será que este é mesmo o
caminho? E se a gente tentasse fazer diferente? Mas e se ninguém nos olhar,
mais uma vez? Meu grito sozinho é só uma sílaba, recordo. E aí, numa rua sem
saída, eu me encurralo em minhas ideologias. Se não tenho a melhor via,
junto-me aos demais. 'Morremos no caminho, mas não a sós'. (inspirado dolorosamente nas manifestações de junho de 2013).
Das presenças tão ausentes
Acabo de ver uma foto de Dominguinhos
acompanhada de uma frase dita por ele e Renato Teixeira: "Os verdadeiros
amigos sabem entender o silêncio e manter a presença, mesmo quando
ausentes". Soa clichê botar uma frase do homem assim, logo após sua morte,
mas é que ela faz tanto sentido, pois, assim como, agora, há uma sanfona e uma
legião de fãs silenciados, esse mesmo silêncio é que nos levará às lembranças, ao sorriso dado, ao abraço apertado, ao até logo
que não chegou. Andei pensando, esses dias, sobre a tal da "amizade
verdadeira". Deparei-me com um tanto de saudades de conversas que não são
mais as mesmas, de expressões que já não fazem mais sentido. Vi fotos de gente
que, hoje, já não reconheceria passando na rua. São rostos que já riram ou
choraram ao meu lado. Já me juraram amizade eterna. Seria muito injusto dizer
que vocês todos, hoje tão distantes, não são amigos verdadeiros. Há dificuldade
bastante em compreender que as relações afetivas que vivenciamos não são nossas
propriedades. Muitos momentos da vida nos permitem aproximações e fidelidades
incomparáveis. Mas tempo e espaço também são unidades em constante mutação. É
difícil compreender que tanto assunto acabou se transformando em um breve
"olá, como vai, tudo bem?". É preciso domar a alma para aceitar a
palavra ex-amigo. Eu aceito até ex-namorado, mas ex-amigo é palavra que desce
rasgando goela abaixo. Aí tu pensa em vomitar todas as histórias ou
confidências, em um gesto de vingança, já que não possui mais aquilo que
outrora ninguém lhe tirava. Agora, assim como a frase de Dominguinhos, restam
apenas o silêncio, a ausência e a certeza de que todos aqueles que passaram
estão presentes de alguma forma.
Contra Tempo
O que me entristece é que o tempo vem me ocupando tanto tempo, que nem tenho tido tempo de ter tempo.
Oração da revolta
Limar as regras e derrubar os muros. Senhor, se estás aí,
faça de mim um ser ilegal, mas nunca imoral. Que eu cometa ilegalidades nesse
sistema irreal. A lei, aqui, só serve ao mané que se diz o tal. Que eu abandone
os protocolos, jogue fora as etiquetas e os seres de alma tão pequena. Amém.
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