Era, apesar de tudo, um sujeito muito sorridente. Afinal, a água benta da “igreja da esquina” o fazia esquecer as desgraças do passado, do presente e também do futuro ainda não concebido.
Jorjão, assim o chamavam os amigos, parentes e principalmente os donos de botecos. Vivia assim: cinco meses trabalhava, dez afundava-se em meio a garrafas de destilados. Mas era, ainda assim, um sujeito muito peculiar, gozava de boa educação para com todos, fossem mulheres ou crianças, idosos ou bandidos, ricos ou pobres. Esse era o tão querido Jorjão.
Mas, o que poucos sabiam é que Jorjão tinha um grande (ou pequeno, tratando-se da forma literal) segredo. Havia em sua cabeça uma bala de revólver, calibre 38, atirada pelo próprio há vinte anos, quando assim descobriu que sua amada, Adalgisa - a loira dos olhos verdes, casara-se com outro homem. Essa foi sua primeira tentativa de suicídio, sem sucesso.
E nesses vinte anos, o homem acomodou-se em uma casa em frente à de Adalgisa. Viu os filhos dela crescerem, enquanto ele, coitado, trajava umas poucas roupas usadas, doadas por seu irmão, o qual também lhe cedera um porão no fundo do quintal, onde dormia.
Mas o sorriso desse tão jovial negro era algo estampado em seu rosto, parecia saber driblar muito bem as artimanhas do destino. Assim era passível de se acreditar.
Porém, em uma quinta-feira à tarde, "alarde na rua de baixo!", polícia no número 136, vizinhança toda parou pra ver. Vila pequena é igual família, todo mundo sabe (ou ao menos quer saber) de tudo.
Pois é, um segundo e lá se foi o sorriso de Jorjão, muito bem falseado durante tantos anos, acabando-se por entre dois lençóis brancos ancorados nas madeiras de seu próprio barraco. Ilusão? Decepção? Alegria? Ás vezes as aparências enganam, ou não!
1 de fevereiro de 2011
Mundo mudado de mudo
O mundo anda tão mudado, e todo mundo tão mudo, em meio a tantas palavras!
Quem muda, mudo fica, com tanta mudança de cor.
E a muda que floresce, também muda.
E a muda menininha cresce, e vai mudar o mundo, que já não nasce mais flor!
31 de janeiro de 2011
1/4
Meu sonho é um dia poder gritar alto em folhas de árvores caídas pelo asfalto. E, quem sabe assim, transformá-las em rosas. Meu segundo sonho é poder matar a fome, em cima de folhas de pão rabiscadas de caneta bic jogadas nas ruas, pelos cobradores de ônibus. Meu terceiro sonho é matar a sede com folhas de coca e fingir ser gente da tua gente.Não possuo quarto sonho... Pois, nem quarto eu tenho. Tenho apenas este quadro, que me faz se sentir enquadrado ao seu lado!
30 de janeiro de 2011
Minha pátria é o mundo e minha religião é fazer o bem
Você tenta me convencer que seu Deus é o dono da razão. E eu tento te convencer de abrir sua janela pro mundo, olhar as estrelas e ver que elas não são uma verdade absoluta, pois anos-luz podem se passar e estas estrelas se dissiparem no ar.Estrelas não são verdades absolutas e eu só quero, agora, abrir minha janela e olhar aquela estrela cadente, que logo se juntará a outra matéria composta de matéria. Tudo é matéria da sua própria matéria. As estrelas são você, você sou eu e isso é Amar – com maiúscula, pois se tem um nome que retrataria todos os deuses e todas as estrelas e todos os céus, esse nome seria o Amor!
Flor de jasmim
Fora! Vá, Ben Ali
Agora, quem manda
É a flor de jasmim
Que, no asfalto queimado
Subiu ao planalto
Sem chão, sem vez
Não morreu em vão
Abriu caminho pra luta
Pra uma grande revolução
A Dita, que era dura
Queira Alá que amoleça
E o povo árabe, logo se fortaleça!
19 de janeiro de 2011
Piscina de papel
Quero escrever folhas de papel esvoaçantes
E colher frutos em meu jardim
Quero um rio de gotas douradas
Para deixar para meus netos
Ou, então, uma piscina de espinhos
Para quando não mais existirem rosas
E muito menos espinhos!
Natureza, dinheiro, papel
Tudo é tão nada
E todo mundo nada nessas projeções engessadas
O poeta, coitado, sonha em ver a lua
A menina de vestido vermelho,
só quer pintar o cabelo da boneca digital
os sonhos das crianças não são mais os mesmos
porque os adultos já deixaram há muito tempo de sonhar
apenas nadam em piscinas de folhas de papel,
pra morrer num lago sem peixes!
José.Raimundo.João
José. Raimundo. João.
José de novo
Põe o pão
Antônio lava o chão
Raimundo viveu em vão!
De novo é tudo sempre,
Igual ao ontem, amanhã pra sempre!
Gira o mundo,
Cai no mesmo lugar
João, José e outra vez Raimundo
Que o qual não teve escolha
Perdeu lugar na fila
De angu
Subiu, desceu e morreu de fome
Sobrou João e José
Mandou matar um boi
Comeu e teve diarréia
Que donde vem João, mata os home
na hora
João na solidão ficou
De fome não morreu
Mas de tristeza adoeceu
Irmão seu viu a morrer
Boi, canteiro e sofrimento
Seca, chuva
É tudo calento
João não teve escolha
Pra cidade se avançou
Puxou os resto de boi
Sentou no chão pra oiá
Num viu estrela
Nem viu Luá
Viu apenas pássaro preto
A voar
Urubu também tem fome
E cactu não sobrou
João ficou na estrada
Nenhum caminhão passou
Cinco dias se passaram
Cinco noites de chuvão
Como pode Deus fazer
Alagar todo o sertão?
*João virou estrela, junto com seus dois irmão!
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