6 de fevereiro de 2012

Meus sentimentos - uma noite no velório

Meus sentimentos. Obrigada. Meus sentimentos. Obrigado.

Este é o básico diálogo estabelecido entre pessoas que se encontram em um velório. Afinal, meus pêsames é pesado demais para um momento já tão pesado. Mas que sentimentos são esses? De onde é que aparecem tantos sentires antes desconhecidos?  Sentimentos da boca pra fora. Sem sentir. (Duvido alguém escancarar, de fato, seus sentimentos. Ainda mais assim, de maneira tão fácil, tão breve). Ah! “Meus sentimentos”.  Acredito que, nesses momentos, um abraço é muito mais válido que esses “meus sentimentos” nunca sentidos.

E assim foi mais uma noite no velório. Já fui a vários. Desde criança eu aprendi a observar as lágrimas de adeus.  Os sinais da cruz em testas geladas. A conversa ao pé do morto.  O “ olá, tudo bem” fora de órbita. E aprendi também a reconhecer o cheiro da morte por meio das flores. E morte, pra mim, tem cheiro de girassol se despedaçando.

Em velório tem gente rindo, gente fazendo piada e muita, mas muita gente bebendo. Pinga, pra esquecer a dor. Café, pra ficar acordado. Chá, pra acalmar os nervos. Remédios, pra não desmaiar. E sentimentos também, por que não? Muita gente tomando emprestados os sentimentos alheios. Comprando dores que nem são suas. Mas essa gente já virou mesquinha, pois não são como as crianças, que pulam e brincam de esconde-esconde mesmo estando no cemitério.

E isso me fez chegar a mais uma conclusão ainda não concluída: as crianças são as únicas que amam sem se deixar levar pelo egoísmo.  São as únicas que não fingem o amor que sentem pelo morto ao lado. Elas podem até estar pulando de alegria, enquanto o defunto está lá de mãos cruzadas. E correm. E dão piruetas. E isso não quer dizer que não amam. Não quer dizer que são frias. Quer dizer apenas que elas viveram ao lado daquele que se foi  o  tempo suficiente pra deixá-lo ir embora em paz. Enquanto os adultos, aqueles mesmos dos “meus sentimentos”, velam a noite inteira um espírito em ebulição. E choram de remorso. E gritam pra dentro de seu próprio ego-egoísta.

Por fim, deixo aqui meus mais puros sentimentos. Infelizmente, também sou gente grande. 

2 comentários:

  1. Não sabemos falar outra coisa alem dessas duas palavras:"meus sentimentos"
    Mentira, sabemos sim" ela esta em um lugar melhor" ou "Deus a quis de volta" essas máximas e suas vaiaveis firaram bordões de cemitérios por que por mais que existimos há milenios ainda nao sabemos nos lidar com a morte.

    as Parcas cortam a linha de nossa vida e quem fica nao se conforma com isso.

    as crianças nao estão(ainda) contaminadas com o virus da falsidade e hipocrisia, riem quendo querem, pulam e brincam e os adultos dizem " são crianças, deixam elas" é bom deixar mesmo, triste são aqueles adultos que prendem seus filhos ao seu lado, diz que é feio e tem que respeitar o morto, mas onde existe desrespeito em brincar? todos querem destrair também, mas nao o fazem devido ao que o outro vai pensar, que vao achar que o sentimento nao existe.

    a grande verdade é que quanto mais distante você é da pessoa que morreu e principalmente dos parentes vivos dessa, você nao liga muito mesmo, eu me importo com a tristeza de quem eu conheço muito bem, e quando é distante, por mais que eu fique triste sei mais passa logo na porta do cemitério

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